"você acredita em médico?! não! vai por mim, põe uma roupa bem bonita, entorna uns gorós de cachaça e vai lá se vingar dessa pessoa sim. agora!"

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Parte III

Não havia reparado a essa altura que ao meu pé estava um outro observador. De nada ele tomava nota, de nada tinha de explícito, assim, sentado, revelava apenas uma oblíqua curvatura das costas a adicionar aos ombros o peso dos anos que não tinha, mas aparentava ter; de tanto que era pareciam os ombros a ele ceder, aproximando-os cada vez mais da mesa aonde apoiava os cotovelos grossos, que, por sua vez, seguravam-lhe a cabeça, cuja fronte em paralelo forjava a leitura de Ian MacEwan, enquanto seus olhos claramente se demonstravam dispersos às letras. Sua áurea exalava perturbação, seu corpo cansaço.

Tendo um álibi, me aproximei. – "Enduring love"! - Já assistiu ao filme? Laconicamente a interrogação me fora respondida : - "Não". Ao menos, em meio a resposta, tivera a elegância de me olhar a cara; desse breve “não” e dos dois segundos seguintes que segurara a cabeça para o alto, de sobrancelhas saltadas e testa franzida,  pude ver...como era possível!? O engano era total, seu corpo e rosto compunham um contraste aterrador. Sua expressão e tom eram de uma desfaçatez, seus olhos de uma prepotência, que, se não me conhecesse, a mim tomaria por um verme. Contudo, não me abalei, a fim de lhe testar comecei a exibir uma sabedoria wikipedista. – É...nem é tão bom assim..., meio lento, sabe?! Quer dizer, eu gosto de filmes lentos, não sei você, mas esse exagera, porque a lentidão parece sem motivos. E a adaptação mudou muita coisa, perdeu o mistério... mas, enfim, tem o Daniel Craig e aquela loirinha bonitinha, a Samantha Morton, conhece?
– Sim, não acho bonita.
Nesse momento elevei o Wikipédia à categoria de semi-deus – já que a divindade absoluta pertence ao google - ele fez esse babaca com cara de “muita coisa” expressar uma opinião! Prossegui, então, o mais irritante possível: - Pois é, como dizem “gosto é igual a cu”.  Depois de ler esse livro, e, por tê-lo feito, visto o filme, comecei a pesquisar sobre a síndrome de clèrambault, sabe? Dizem que fica mais claro se uma pessoa foi acometida por ele em seu último estágio – o rancor. Ele riu. Achei que fosse me mandar para o inferno, mas riu e disse: - Peguei esse livro com a minha irmã, até então do autor só conhecia o filme que adaptaram e foi interpretado pela Charlotte Gainsbourg...falamos em uníssono “The Cement Garden”. - Um dos meus filmes prediletos,  revelei.

Trocamos mais algumas informações. De repente, sua fisionomia não me parecia tão diferente da minha. Passada uma hora de conversa, demos um “até logo” com vista de nos encontrarmos novamente, eu precisava...seilá, ir embora.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

"sou o bicho humano que habita a concha ao lado da concha que você habita"


Com você eu não queria ter uma bela conversa, de livros bem escritos tenho montes na estante a fazer peso uns sobre os outros, a dar sustentação àqueles que sempre recorro, aqueles cheios de marcas e dobras, cheios de sangue. Meu projeto era outro. Meu projeto era desestruturar os limites da forma, era encontrar uma escrita só nossa, um signo só nosso.

Eu pagaria o preço do desencanto, para ir fundo no seu desconhecido, revelá-lo como a mais bela dissonância, que faria eco ao meu desafino. Meu projeto era, nesse abismo só nosso, encontrar o rasgo da veia libertária, ser em silêncio compactuado Mickey e Mallory - natural born. O seu era a memória de Rick e Ilsa.

Escrevo sozinha.

domingo, 16 de maio de 2010

the pity condition of the human beings


- O que houve?
- Eu perdi algo.
- O que é?
- Não sei.
- Como ele é?
- É grande, suponho.
- Mas você o perdera agora.
- Não. Eu nunca o tive presente, só notei a falta.
- Desculpe a pergunta óbvia, mas como pode alguém perder algo que nunca possuiu?
- Não sei. Não vejo obviedade alguma em sua pergunta, pelo contrário, ela desnuda o lado aporético não só da  palavra, como também da vida. Todavia, no intento de  amenizar o impasse verbal, o único que, talvez, com muito esforço humano possa ser esclarecido, digo ter agora dado falta  do que perdi sem nunca ter, porque antes esse sentimento estava esquecido.
- Então não é importante saber a matéria do que lhe falta?
- Talvez sim, talvez nao; enfim, pode-se tratar de  algo amorfo ou multiforme. quem sabe?
- Entendo, de nada adiantaria atualizar a informação, porque a perda continuaria constante; nesse caso, o mais plausível seria acostumar-se com o sentimento, certo? Só que, quando lhe vi, achei que estivesse à procura de algo.
- E estava!
- Não entendo. Reponda-me, afinal, o que estavas em tamanha aflição a procurar?
- Já disse. O que perdi.
["II y a toujours quelque choe d’abient qui me tourmente" - por coincidência ou puro enigma, as ausências se encontram.]

domingo, 2 de maio de 2010

the moon's conjunction with pluto

- eu encontro a minha verdade na ciência e na retidão. - E você, aonde reside a sua?
- em tantos lugares  e ao mesmo tempo em um só. Minhas verdades encontro no controverso, na desmedida, no pathos, no submerso...em Dionísio, em Hades. A propósito,  hoje eu sonhei com um céu negro,  no ar havia o cheiro  de tempo sem tempo...o tudo do sonho estava prestes a ser dragado por um negrume indefinido, mas não fora...ficou a sensação de quase fim. Não gosto de experimentá-la, sempre que acontece frustro-me por nao saber como será o depois.
-  o depois não há, por isso não sonhastes com ele.
- por certo que há. sempre haverá.